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Monte do Adeus

 

Num dia estrelado, foge-me o relógio de bolso.
Frívolo, leviano, conta as memórias de um passado esquecido.

Subo arduamente o cume dos sonhos,
nomeado por sorrisos clandestinos,
Talvez perdidos, mesmo com o olhar tremido.

Faz-se sentir a campânula robusta, mas gentil,
Onde chamo o mundo aos meus pés, num eco estridente.

Eis que chega a luz, preciosa e intocável,
Num calor prazeroso por mim invocado,
nascido a poente.

É aqui que proclamo ao tempo as rugas do meu rosto vencido,
Escamado pelos ventos de um dia sem fim.

E assim sinto os anos sem conta,
debruçado nas areias escuras,
Onde posso finalmente dormir,
pois o céu continuará a rodar sem mim.

Amigos andantes



Trocámos um sorriso sem sabermos de onde viemos,
nem para onde vamos.

Somos capazes de empatia sem razões subliminares,
até nos assentos andantes.

Quando me cruzo com a multidão, de olhar esguio, e toque frio,
Não me sorriem com o olhar, muito menos mo dirigem,
pois as pessoas fingem.

Estamos todos muito ocupados a sentir a sombra dos túneis,
Ou a esgueirar a luz pela janela, nas nossas carcaças ambulantes.

Corcundas por ecrãs pequenos, de olhos vendados a tapar a expressão,
Quem somos, e qual a próxima estação? É uma boa questão.

Talvez pare já aqui, não a seguir, quiçá desvendar novos antigos,
E antes da paragem seguinte perguntar, "Será que poderíamos ser amigos?"

Eu, Universo

 


Quem sabe se eu sou a vida, ou ela eu?
Se imagino as portas que o tempo segurou?
Talvez nem o mundo queira ser meu,
Porque a minha sombra escondeu-se, e definhou.

E ao som dos passos corridos na planície industrial,
Temo sentir que o espaço vazio não é real,
Pois os sentidos separam-se da mente vedada,
E a maré de perguntas já se encontra cansada.

Será que ser, apenas ser, chega-me assim?
Quando estar não serve para ler as linhas tortas,
Neste livro eterno, folheado vezes sem fim,
Onde as marcas do destino estão mortas?

Só sei saber que venho do céu estrelado,
E quero conhecer-me antes de ficar parado,
Pois o escurecer vindouro do meu corpo brilhante,
Não será em vão, e sim a minha nova luz a jusante.

Água alada

 


Nas azuis profundas deste mar alado,
Levam os remos a força de um passado amado,
E chovem gotículas de cristal polido,
Não tenham estas águas de palavra nascido.

Aqui jaz a hora de um descanso profundo,
Que há muito se declarou parte do mundo,
Traz com ele um sonho deveras apetecível,
Nas profundezas desta alma de voz imprevisível.

E as águas perguntam ao movimento desta solidão,
Se vai em frente, ou fazer parte da submersa reunião,
Pelo que a coragem declara, a fintar de desdém,
Nem por ti, oceano de jazidos, nem por ninguém!

A hora do tempo

 


Já é hora?!
De ir embora, de sair para fora?
De fingir que nada se passou, outrora,
E deixar flutuar a lanterna pelo Espaço fora...

Já é hora?!
De dizer adeus ao tenro e saudoso agora,
De queimar o tesouro dos nossos beijos de amora,
E a vida, chora?

Já é hora, sim, já é hora!
Das palpitações cintilantes com demora,
Se fazerem sentir reluzentes, qual aurora!

E é hora, bela hora,
De desejar que os meus pensamentos andantes,
Esquecidos num mundo de florestas flutuantes,
Sejam, um dia, flora.

Mar vermelho


Eis que visito o mar escarlate, nesta vasta maré de rebate.
Navego nas ondas escaldantes, olho de soslaio o horizonte de chamas,
E sinto o calor abrasador no meu rosto, de quando ontem dizias que me amas.

Essa é a estirpe demoníaca que arrasa e destrói o bem do vil,
Que arranca a gravura de uma formosa casa, limpa as lágrimas com farpa, e desfaz a alma de quem é gentil.

E de chumbo e cobre se faz o sangue que corre nas veias de quem se pinta de azul e branco,
Enquanto eu remo contra a corrente, fervente, neste manto.

Por favor, digo eu aos sete ventos, vai embora,
E deixa-me sentir a brisa apaziguada de outrora,
Pois o vermelho sombrio desta luz tremida,
Face ao rumo com vigor, destemida,
Não é mais o que posso declarar, vida.

ABC, D.

De todas as noites, a luz veio de ti. Aí ao fundo, mas aqui tão perto, és a minha torre para o céu, a árvore da vida do além. Tornas-te a cada dia fundamento das minhas raízes pertinentes e quebras a rotina peculiar que, amarga vizinha, dobra a minha sombra nas paredes. És o chão que me leva ao eterno e serás sempre esse atributo de mim, a minha luz brilhante. [obrigado, sempre]